Método 22 de maio de 2026 5 min de leitura

O que os italianos me ensinaram sobre luz

Notas de uma tarde na PUC Minas Lourdes, falando sobre luz como intenção, não como infraestrutura.

Iara Santos em palestra na PUC Minas Lourdes pelo Italian Design Day, abril de 2026.

Quase toda palestra de iluminação que assisti na vida poderia ter sido dada em qualquer sala. Slide sobre lúmen, slide sobre temperatura de cor, slide sobre o LED mais recente — conteúdo que não percebe onde está pisando.

A tarde do dia 13 de abril não foi esse tipo de palestra, e o motivo foi o prédio.

O Consulado da Itália em Belo Horizonte organizou o encontro para celebrar o Italian Design Day e a Giornata del Made in Italy, com apoio da CASACOR Minas. A casa foi a PUC Minas Lourdes — um prédio Art Déco dos anos 1940, projetado pelo arquiteto italiano Raffaello Berti — e a plateia eram os próprios alunos do curso de Arquitetura e Urbanismo da universidade. Falar de luz dentro de uma obra do Berti, na frente dos estudantes que andam por aqueles corredores toda semana, é herdar uma régua antes de abrir a boca. Nada do que você fala pode ser descuidado.

Cheguei representando a empresa onde coordeno o setor de arquitetura e lighting design — uma fábrica e estúdio especializado em iluminação no Brasil, atendendo projetos residenciais, comerciais e corporativos. E cheguei com uma tese que vinha amadurecendo havia meses. Vou registrá-la aqui porque é a coluna do jeito como eu penso o que a gente faz.

A Itália não inventou a luz. A Itália aprendeu a respeitá-la.

Foi esse o argumento que tentei sustentar diante de estudantes, profissionais da área e Stefania Leone, a outra lighting designer que dividiu a mesa comigo. A palestra dela atacou o tema por outro ângulo e, por contraste, deixou a minha mais nítida.

O raciocínio

Uma luminária não é um projeto de iluminação. Uma lista de especificação não é um projeto de iluminação. Mesmo um plano elétrico bem desenhado, com a potência certa no circuito certo, ainda não é um projeto de iluminação.

Projeto de iluminação começa muito antes — numa decisão sobre o que o ambiente é, para que ele serve, e como um corpo vai atravessá-lo nas diferentes horas do dia. A peça vem por último. Nunca primeiro.

O que os italianos fazem — e o que as melhores fábricas italianas continuam fazendo, da Flos à Artemide à Viabizzuno — é embutir essa intenção dentro do próprio produto. A luminária chega já sabendo para que serve. O ângulo do facho foi uma decisão. O acabamento do corpo conversa com a parede onde a peça vai morar. O driver foi dimensionado para o lúmen que o ambiente pede, não para o lúmen que o catálogo entrega por padrão.

Você pega a peça na mão e percebe que alguém, antes de você, já pensou no espaço.

Foi isso que tentei trazer. Não a estética. A disciplina.

O exemplo que mostrei

Levei aos estudantes um pedaço pequeno de trabalho meu — um escritório onde coordenei a aplicação de luminárias de temperatura variável seguindo uma curva circadiana ao longo do dia. Mais quente cedo. Mais neutra ao meio-dia. Voltando a aquecer perto do fim da tarde.

Não como novidade tecnológica. Como a aplicação mais simples possível de um princípio: a luz precisa saber que horas são. O corpo sabe. A lâmpada tem que acompanhar.

O que eu não disse na sala

Um país com o nosso sol deveria ser o melhor do mundo nisso.

O Brasil tem mais luz natural do que quase qualquer mercado maduro, e a gente trata essa luz como enfeite. Projeta ambientes que brigam com as próprias janelas. Especifica peças que aplainam justamente o que o clima nos deu de graça.

A disciplina italiana não é importação estrangeira no nosso caso. É correção de um vício que a gente naturalizou.

A parte que vou guardar

A troca com os estudantes depois foi a parte da tarde que vou guardar. Estudante de arquitetura ainda faz a pergunta que cliente pagante já aprendeu a não fazer. Quer saber por que uma coisa é feita, não se ela está na moda. Quer o princípio, não a tendência.

Quando saímos do prédio, a conversa já tinha andado da luz para algo maior — para como um arquiteto jovem decide quais réguas vale a pena carregar pela carreira inteira, e quais dá para deixar pelo caminho sem perder nada.

Se tiver próxima edição, torço para que aconteça num lugar como aquele. A sala ensina metade da aula antes do palestrante dizer qualquer coisa.


Obrigada ao Consulado da Itália em Belo Horizonte, à CASACOR Minas, à PUC Minas, à Stefania Leone, e aos estudantes que ficaram para a conversa que importava.

Se você está construindo uma prática que leva a luz a sério — ou contratando alguém para liderar esse trabalho — escreva para [email protected].